domingo, 1 de maio de 2016

[Espaço Psy] A vida passada numa “Fortaleza Vazia”

Texto: Cláudia de Andrade

Mestre em Psicologia Clínica Dinâmica pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa


As montanhas são belas mas não me dão nenhum sentimento especial...vocês olham o 
ribeiro, as flores e eu vejo o prazer que vocês têm ao fazê-lo... Tudo isso me é negado...”                                                                                               

 Temple Grandin


Consegue imaginar ter um bebé que não olha nem sorri para si? Que não identifica as suas expressões faciais? Uma criança que não responde às brincadeiras, que parece habitar um mundo só seu (ou uma “fortaleza vazia” como chamou Bettelheim), e para o qual não foi convidado? Uma criança que está lá mas parece não estar, que não parece alegrar-se com nada? Consegue imaginar-se mãe ou pai desta criança?
O impacto de um diagnóstico de autismo muda inevitavelmente o percurso da vida de uma criança mas também da sua família, sendo que cada vez mais, a intervenção precoce parece abrir todo um universo que pode vir a estar ao alcance da mesma. 
Muitas vezes mergulhados num período de incompreensão, de procura de respostas e de confusão, um diagnóstico de uma perturbação do espectro do autismo acarreta um prognóstico difícil de encarar pela família da criança. Longe das histórias idílicas de Hollywood, na realidade uma grande percentagem destas crianças ficarão dependentes de cuidados de outrem para o resto das suas vidas, e apenas algumas poderão ser autónomas, embora de uma forma limitada. 
No entanto, devemos lembrar que, associado à confirmação de um diagnóstico desta natureza, o potencial imenso destas crianças poderá ser trabalhado, apoiado e desenvolvido, o que muitas vezes leva a que se tornem adultos com papeis perfeitamente integrados na sociedade.
Esta patologia não consente uma explicação reducionista, apresentando comummente um quadro geral de défice muito vincado na socialização, comunicação e imaginação que se parece dever a uma falha na interação primária com os outros, em que a criança, na fase da construção da sua vida mental, se retira para dentro de si mesma, escudando-se de um meio externo que se configura extremamente agressivo, sem que esta tenha ainda um self suficientemente coeso que lhe permita elaborar este sentimento.
Actualmente, admite-se a possibilidade do autismo surgir associado a perturbações ao nível dos neuro-mediadores do cerebelo e, mesmo a hipótese da existência de uma anomalia genética na sua génese, pelo que é aceite a interação entre factores biológicos e uma falha efectiva no estabelecimento da relação primária que vem a impossibilitar o surgimento e desenvolvimento saudável da vida mental da criança
Se é tão característica esta retirada, esta incapacidade na relação, então porquê a demora e dificuldade em chegar a um diagnóstico?
Habitualmente, o autismo aparece associado a um leque muito vasto de patologias, tais como epilepsia, perturbações sensoriais e perceptivas (em que a criança se mostra extremamente sensível a certos estímulos e aparentemente sem resposta a outro tipo de estímulo), casos de autoagressão são comuns, perturbações emocionais (como labilidade emocional, medos excessivos). São meninos que se sentem muitas vezes perturbados por mudanças no ambiente exterior ou nas rotinas do seu dia-a-dia e possuem muitas vezes distúrbios alimentares (tendo um leque muito limitado de alimentos que consomem).
Da mesma forma, são frequentemente crianças mais propensas a episódios psicóticos, de hiperactividade e de ansiedade. 
Ainda, e sendo ambas patologias do espectro relacional que se manifestam precocemente, existe o perigo de se estar a sinalizar erradamente estados limite (borderline), uma vez que esta escusa à relação podem ocorrer em ambas e ser facilmente confundida, tal como poderá estar a espelhar a sintomatologia associada de uma criança mergulhada numa profunda depressão que se procura evadir ao contacto com os outros.
Tais dificuldades mascaram, muitas vezes, o verdadeiro diagnóstico, que tende a surgir mais tardiamente.
Para mais, a avaliação, no caso de suspeita de uma perturbação deste espectro, deve ser feita com instrumentos que permitam identificar não apenas as limitações mas também o potencial destas crianças para a aprendizagem. 
Um diagnóstico diferencial correcto, proveniente de uma avaliação extensiva, multidisciplinar com recurso a instrumentos validados que permitam avaliar os vários domínios em que estas perturbações causam défices, permite intervir o mais cedo possível. 
Tal intervenção acarreta benefícios claros para o desenvolvimento da criança, como abre portas a um acompanhamento que possibilita um melhor entendimento da patologia e das suas características por parte dos pais que durante os primeiros anos da criança se sentem, muitas vezes, perdidos.

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